HYRAL: O CACIQUE QUE FAZ A DIFERENÇA NA ALDEIA E NA SOCIEDADE

Arteris
HYRAL: O CACIQUE QUE FAZ A DIFERENÇA NA ALDEIA E NA SOCIEDADE

Para os jovens eu servi de exemplo, trabalhava, era cacique e ainda estudei. Para os mais velhos fui um orgulho.

Hyral Moreira é cacique da M’Biguaçu, uma das 10 aldeia que fazem parte do Componente Indígena do Plano Básico Ambiental (CI-PBA), um dos programas do processo de  Licenciamento Ambiental do Contorno. O cacique de fala tranquila, típica da etnia guarani, tem uma trajetória admirável. É o único advogado indígena de Santa Catarina e está entre os seis do Brasil – em uma população de cerca de 820 mil indígenas no país – segundo dados do censo do IBGE de 2010.

Com 40 anos e feições características dos guaranis, Hyral divide sua rotina de cacique e líder religioso da M’Biguaçu com o escritório de advocacia que fica no município de São José e, com a especialização em Processo Civil que está cursando. Como advogado, atua em direito trabalhista e, como cacique, já está há 16 anos no cargo liderando e administrando o dia a dia dos 136 indígenas moradores da aldeia, localizada às margens da BR-101, em Biguaçu.

Quem “bate-papo” com Hyral e tem a chance de conhecer seu atual currículo não imagina que aos 14 anos ele parou de estudar e foi trabalhar como pedreiro. Fez o Ensino Fundamental em escola pública comum, já que as escolas nas aldeias só foram instaladas em 1994. Aos 22 anos voltou aos bancos escolares, fazendo supletivo para jovens e adultos. A demora em concluir o Ensino Médio não impediu seu desejo de seguir com os estudos. Com 30 anos entrou na faculdade com a ajuda de um amigo que conhecia o reitor de uma universidade particular e conseguiu uma bolsa integral. Na época não existiam cotas para índios nas faculdades. Virou bacharel em direito com 36 anos e logo passou no exame da OAB.

Na trajetória dos estudos enfrentou dificuldades, principalmente, com a língua e, em alguns momentos, o desafio que assola a classe indígena: o preconceito. Ele afirma que, apesar do cenário ser diferente hoje em dia, já que vários indígenas estão fazendo curso superior e, assim como ele, continuam vivendo na aldeia sem abandonar o modo de vida, o desafio é se inserir no mercado. “As pessoas aqui fora associam muito o indígena com incapacidade intelectual, por isso incentivamos os jovens a buscar a capacitação. Queremos valorizar a nossa identidade, mostrar nossa qualidade sem deixar de ser quem somos. Orientamos os mais novos para que entendam que lá fora é totalmente diferente, é preciso se qualificar”, destaca.

Além da lista de funções, Hyral agora vai acumular mais uma atividade, tornou-se consultor da MPB Engenharia, empresa contratada da Autopista para execução do Programa do componente Indígena do Contorno. E ao ser questionado como os outros membros da aldeia o veem chegando onde chegou, desenvolvendo tantas atividades, com um sorriso no rosto Hyral assume que virou um modelo. “Para os jovens eu servi de exemplo, trabalhava, era cacique e ainda estudei. Para os mais velhos fui um orgulho”, completa.